Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


 
                          Circunstâncias Guarabirenses
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       Deus fez de um presépio casa; Ana e Ademar fizeram, sob a curadoria de Fátima Morais, da sua casa um presépio, deitando o Menino sobre o feno, entre maravalhas. Diante dela, guiados pelo boato e reportagens, enfileiram-se curiosos de todos os recantos, vindos de Araruna, Solânea, Bananeiras, Areia, Campina Grande, Pirpirituba, Pilar, Itabaiana, Recife, Rio, Brasília, Ouro Preto e, como era de se esperar, de Natal e Belém. Turistas de terras longínquas fotografam a casa; invadem a residência, à procura de um assento, cansados pela subida à monumental Estátua de Frei Damião. Os egoístas reclamam: “ - Eu, hein!... a casa invadida desse jeito?”; criticam os invejosos: “ - Que exagero, se vai desmontar depois dos Reis Magos?”; homens de negócio calculam: “- Com esse dinheiro, compraria três carros, zerinhos, e os colocaria na praça.” Ouvi a maioria, de bons sentimentos, admirar este espetáculo de beleza e riqueza, nunca visto em outros lugares, e dizendo: “ – Cada um gasta o seu como gosta e se sente feliz...”
       Guarabira entrou na minha vida em circunstâncias significativas. Em setembro de 1966, precisei pegar o navio para morar quatro anos na Itália e saí de Guarabira. Em João Pessoa, também em Campina Grande, Recife e Natal, não encontrei ônibus que me levasse até ao porto do Rio de Janeiro. Viajei a Roma, no dia sete de setembro, partindo de Guarabira, no Expresso Paraibano do saudoso ex-prefeito, Gustavo Amorim, para chegar a Napoli, no dia 27, festa de São Cosme e Damião. Durante o desembarque do Giulio Cesare, recebi efusivos parabéns. Ao estranhar por não estar aniversariando, Antonio Sobrinho, que me deu a distinção de receber-me no cais, explicou: “Aqui, comemoram o dia onomástico quase igual ao do aniversário”. Assim comecei a me adaptar a diferentes costumes, a compreender outras culturas. 
       Voltei da Itália e, ainda muito jovem, em 1971, fui convidado pelo Professor José Paulino para criarmos a FAFIG (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarabira), hoje, incorporada à UEPB por Roberto Paulino e Tarcísio Burity. Fui professor do Colégio Nossa Senhora da Luz; na FAFIG, docente fundador e, logo em seguida, Diretor, em substituição ao estimado José Paulino. Foi por lá que conheci Maria Luiza, minha esposa, e tantas pessoas valiosas, com que construí duradoura amizade, já iniciada com o ilustre guarabirense Germano Toscano, em 1960, no Seminário Arquidiocesano da Paraíba. Quando casei, procurei casa em João Pessoa, perto do mar, e só encontrei para alugar a de Otinaldo Lourenço, na Avenida Guarabira.
       Enfim, Guarabira faz parte, circunstancialmente, da minha vida. E continuará a fazê-lo, enquanto visitar tanta boa gente; também para rever, anualmente, a Casa- Presépio de Ana Maria Morais e Ademar Machado, onde estou e aonde sempre virei com muita alegria. Acredito no que afirma Ortega y Gasset: “Eu sou eu e minhas circunstâncias”.
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 09/01/2010
Alterado em 18/01/2011
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