Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


             Cartas atiradas ao mar
          

          Encontrei, entre as minhas manias, a balancinha de pesar cartas e as que recebi, há anos, quando morava longe de casa, em outro mundo. Queridas lembranças de amigas e amigos que me escreveram, talvez na curiosidade de a missiva chegar ao endereço 527 da Via Aurelia,  no outro lado do mar, quase iguais ao marinheiro que escreve, guarda sua mensagem numa garrafa arrolhada e joga-a no oceano para que ela navegue longe, até a um ignorado destinatário. Assim, escreve-se ao homem ou à mulher, ao velho ou à criança, ao pescador ou ao poeta,  a quem encontre este envelope de vidro, vacilante à tona das ondas, ao lado do barco ou rolando, pra cima pra baixo, na areia da praia. Cartas, anteriores às minhas, sobrevivem, na espuma do balanço das águas salgadas, tendo como correio o acaso ou o destino.
          Mesmo de indiscutível agrado, ansiosamente aguardada pela pessoa amada ou amante, hoje se espera em vão o grito do carteiro, a carta anda desaparecendo. Exceções dadas às de intimação judiciária, às de cobrança, às publicitárias ou mesmo às pedintes de voto. Nunca mais vi alguém escrevendo ou recebendo palavras desinteressadas de amizade ou, como era conhecida, uma carta de amor. A pressa do tempo, ocupações com coisas insignificantes forçaram-nos à linguagem telegráfica do e-mail, informatizada, sintética, como a voz metálica do robô. Frases com siglas e abreviações, reprodução de um idioma mal falado, sem pontuação, concordâncias e de constante ausência literária. Lamentavelmente, morre a carta- mãe para a informática parir miúdos pedaços de efêmero recado.
          A carta de amor não traz nem leva notícias, às vezes, usa isto como pretexto para o tímido enamorado aproximar-se da eventual conquista. A literatura é farta de cartas que substituem a coragem de se manifestar pessoalmente a paixão. Contudo, escrever confissões não deixa de ser um ato corajoso, que liberta solitários da solidão. A carta também se torna fetiche: a paixão beija o papel no lugar do amante; a carta dorme debaixo do travesseiro ou, à noite, é guardada numa pequena caixa sob sete chaves; no outro dia, retirada e relida pela enésima vez. Já vi carta amassada por carinhos e abraços, com letras borradas por lágrimas, e também devolvida ao remetente que acabou o namoro. As mulheres, mais do que a maioria dos homens, preferem, aos gestos galanteadores,  palavras no ritual da sedução , o escrito que documenta o compromisso, declaração que lhes proporciona fascínio e prazer. Se se extenua o romantismo, desaparecerão as cartas, independentemente dos diálogos virtuais. Com o fim da carta, some parte dos romances e da poesia. Melhor que as cartas continuem vivas, mesmo que atiradas ao mar.

          
         
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 03/08/2010
Alterado em 03/08/2010
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