Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


Amor e Morte de um Profeta
         
          Li que, quando Khalil Gibran, com apenas 48 anos, morreu  em Paris, não morreram consigo milhares de cartas de amor, guardadas numa caixa de madeira escondida como se fosse para ele um tesouro. No seu sepultamento, havia centenas de admiradores, muitos desses, amores que também teriam escrito algumas dessas cartas. Alguns choravam, no entanto, um amor desconhecido e silencioso  estava ali presente, sem lamentar a morte do amado, esboçando sorriso à Monalisa, Mary Elizabeth que escrevera a grande maioria dessas missivas. Lembrava-se ela do que ele teria respondido às suas interrogações naquelas cartas do tesouro insepulto. Assim disse o profeta: “O começo não é o útero, e o fim não é o túmulo”.  Não era por pouco sentimento que não chorava; sua paixão a fez cruzar o oceano, de Boston a Paris, tão somente para se despedir daquele a quem tanto escrevera. E escrever ao outro é sempre sinal de interesse, ódio ou amor.
 
          Embora hoje não seja mais costume dos amantes e objeto dos romances, Mary tinha trocado cartas com Gibran durante trinta anos, desde quando esse árabe foi  expulso do Líbano à França  pela  força da miséria. Em Paris, conheceu Mary numa exposição de arte como anônimo poeta, circunstância em que surgiu um amor que cresceu no silêncio. Quanto mais ausente um do outro, mais cartas escreviam, ganhando Mary, em voluntária solidão, ricos pensamentos sobre o ser feminino; e Khalil, a corresponder à solidão da amada, apenas solteiro, sem procurar amores paralelos e a demonstrar nessas cartas como pode haver amor a distância.
 
          Khalil Gibran, quando pensa sobre a vida, leva-nos a crer sobre a importância da “meditação infinita”, fala-nos a respeito de tudo e especialmente da emoção humana.  Quando escreveu, além dessas cartas, livros, trouxe ao conhecimento do Ocidente joias do pensamento intuído no Oriente.  A exemplo de Mary, nos Estados Unidos, ainda hoje, seu livro “O Profeta”  costuma ser presente entre os amantes.  Aqui , no Brasil, retoma-se  a leitura dessa obra que teve enorme sucesso na década de 70. Neste livro, talvez por ter aprendido tanto amor distante da amada, Khalil Gilbran aconselha: “(...) Que haja espaços na vossa junção (...). Pois as colunas do templo erguem-se separadamente, e o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro”, e assim também , vivem, morrem, mas isso não é o fim... 
 
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 15/11/2012
Alterado em 18/11/2012
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