Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


                                         
Aos vivos ainda resta viver...
 
            A Rua da Inveja é histórica na cidade de São Luís. Certamente o povo, ao perceber esse vil sentimento passeando por aquela via maranhense, assim denominou-a, observando a inveja, poucas vezes, disfarçada e, muitas vezes, explícita. A psicanalista Melanie Klein excetua ninguém, nem a si própria, todos invejam. Mas, há quem se exceda na prática desse “ódio primitivo”, corruptor, já cometido antes do assassinato do invejado Abel. Todos invejam, mas, uns menos, outros mais. Há os que chegam às manifestações mefistofélicas. E, por causa da invídia, mentem e praticam violências físicas ou morais, tanto como a do invejoso Caim. Há os que invejam porque vivem; existem os que vivem para invejar...

          Normalmente, inveja-se ao se desejar a qualidade que está no outro ou a quantidade que o outro possui. Ninguém tem inveja de si próprio, o que seria ótimo, comparar-se-ía a si próprio, ensejando mudanças para melhor... Mas, na inveja, há uma inseparável relação entre o eu e o outro, ou o “ego” e o “alter”. Ela acontece, logo que alguém se compara com outro. Assim cogita: Ele é e eu não sou; eu não tenho e ele tem; ele faz e eu não faço... Pelo aspecto positivo, tais pessoas poderiam crescer, quando se comparam com os melhores, sentindo nisso um aguilhão. Segundo John Rawls, assim é procurado o direito por cada um. Porém, muitas vezes, basta essa comparação para a emulação, enveredando-se pela pecaminosa avenida da intriga. O budismo adota o caminho ético, achado em Lucas, 4, 23: “Medice, cura te ipsum(Médico, cura a ti próprio). Assim, comparar-se consigo mesmo; avaliar o que, hoje, há de bom em você e,  amanhã, será melhor poderão ser atalho que evitará o confronto do eu com o outro; tornando o barro invejoso maleável argila nas mãos do Oleiro, transformando o vaso velho em vaso novo.

           Na universalização teorizada por Melanie Klein, é compreensível que, uma vez ou outra, alguém passe pela Rua da Inveja. O degradante é morar ali, cobiçando o que não é seu, desejando ser a outra pessoa, ambicionando o sucesso dos colegas, dos amigos, falseando a verdade sobre eles ou sobre o que eles fazem. Aceitar o que somos e aprender além do que sabemos nos conduzem a sair dessa rua... Enfim, em Crime e Castigo, Dostoiévsky nos admoesta: “Deus dê paz aos mortos, aos vivos ainda resta viver”.    


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Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 08/11/2013
Alterado em 17/11/2013
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