Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


Ariano Suassuna, a quem pertence?


          Na mania de ter mais do que ser, também se lobriga subjacente disputa: a quem pertence Ariano? A ninguém, mas a todos. Ariano Suassuna contava nas suas “aulas-espetáculo” que nasceu na Paraíba, precisamente na casa principal do nosso Estado: o Palácio da Redenção. Contudo, a ambiência palaciana jamais desmanchou sua peculiar simplicidade de criança, ao preservar valores, costumes taperoenses. No entanto, já adolescente, foi levado a morar na vizinha Recife, distanciado das circunstâncias e dos comentários sobre o assassinato, no Rio de Janeiro, do pai, então Presidente ou, hoje, ex- Governador da Paraíba. De quem filho? Responde-nos a Certidão de Nascimento: Do catoleense João Suassuna e da teixeirense Rita de Cássia, e, por analogia, da capital paraibana, seu berço natal. No entanto, Ariano agradecia a longa hospitalidade dos pernambucanos, onde viveu até seus últimos dias, dizendo-se adotado por aquele Estado e ao falar, sorrindo, sobre suas preferências: “A Paraíba é a minha mãe; Pernambuco, o meu pai”.
          Quando cogitado “paraibano do século”, não aceitou a indicação, pedindo aos seus conterrâneos voto ao poeta Augusto dos Anjos, no que logrou êxito. Já no mundo acadêmico, a Academia Paraibana de Letras, sem discrepância entre seus confrades, o escolheu para a cadeira 35, cujo patrono é Raul Campelo Machado, inicialmente ocupada por José Américo de Almeida e depois por Odilon Ribeiro Coutinho. Assim, Ariano Suassuna se consagra imortal da Academia Paraibana de Letras. Mas, como de se esperar, também da Academia Pernambucana de Letras. Porém, a Academia Brasileira de Letras, como evitando qualquer pretensiosa apropriação, vestiu-lhe o fardão, nesse vulto da literatura nacional.
          Nesse dia 24 de julho, em Recife, estivemos Flávio Sátiro, Otávio Sitonio Pinto e eu, em comitiva, representando a APL; em nome da Paraíba, bem ao lado, o governador Ricardo Coutinho, com o Secretário de Cultura Chico Cezar; Natércia Suassuna, do IHGP, e Maurício Burity, da Funjope, representando o prefeito Cartaxo; a presidente Dilma, o Brasil; havia outros paraibanos, quando a TV pernambucana me perguntou o que motivou tais presenças, no Palácio do Campo das Princesas, despedindo-se de Ariano. Fui sucinto: Ariano Suassuna orgulha, como filho, a Paraíba; amou, defendeu nossa cultura e aonde foi a árvore levou consigo suas raízes. A Paraíba, Taperoá constituíram sempre cenário das suas obras; sempre nosso povo se fez presente nas imagens, nas palavras e no coração de Ariano... Enfim, a quem pertence Ariano?
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 25/07/2014
Alterado em 26/07/2016
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