Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


                                   A pedra e Hildeberto

          A pedra não nasce porque não tem vida; se a pedra nascesse, daria vida a outras vidas. Ela se constitui e se reconstitui de pó e casquilhas da poeira cósmica, sem moto próprio, ajudada pelo vento, voa desde as galáxias e tempos remotos; superior às precipitações, fragmenta-se, mas não morre, acumula-se em montanhas. Já na Terra, rola de ladeira abaixo aos pés das serras, espalha-se nas planícies ou nos rios. Parafraseando Heráclito, as águas do rio jamais lavam, duas vezes, a mesma pedra. As águas fazem a pedra bela, polida, redonda como os seixos, à semelhança das bolinhas de gude da nossa infância, tidos como gado, num curral de sabugos. E as meninas jogavam tais pedrinhas pra cima, aparando-as na mão, no jogo da bugalha, aqui chamado de "ossinho" e, culturalmente  na África, de "mathacozona". Segundo referências lógicas  ou epistemológicas, numa definição circular, geralmente infantil, mas muito profunda: A pedra é uma pedra...
          Hildeberto é hildeberto, mas, ao contrário da pedra, nasceu, tem vida, cresce e movimenta-se. E quando desprende a força da sua criatividade, dá vida a outras vidas; verifique-se nas filhas Mariana, Carolina e, por extensão, na neta Lara. Assim como "a causa se prolonga no efeito ou o efeito é a extensão da causa", as obras de Hildeberto são extensões dele mesmo; ama e cuida dos seus livros como se fossem partes de si mesmo. Confidencia-nos sua esposa Vera que sua biblioteca é o seu relicário. São mundos inseparáveis, livros e Hildeberto,  numa "única viagem", num longo caminho, que sempre chamarão de imortalidade.
          Volto às pedras de Aroeiras, cidade por ele carinhosamente chamada de "Comarca das Pedras", onde plantou árvores aroeiras, tornando-a também "Comarca de Hildeberto". Ele, por analogia, é uma pedra: Uma das pedras angulares da Academia Paraibana de Letras e das universidades onde ensina. No mundo letrado, é uma das pedras filosofais da palavra, da linguagem, da literatura, da arte literária e, sobre esse sujeito, das suas explicações. Poeta, de potencial criatividade, procura não perder sua inteireza, a seguir o poeta filósofo Fernando Pessoa: "Sê inteiro em tudo que fazes". Renomado por tais qualidades, constata-se que seu pai Hildeberto compreendeu a criança e, convencido por uma intuição profética, para seu orgulho e ouvida a mãe Dona Detinha, projetou-se no filho caçula, registrando-o e batizando-o com o nome de Hildeberto Barbosa Filho.
   
                                                     

 
Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 06/05/2017
Alterado em 19/05/2017

Música: Sinf. 4 - Vivaldi

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Damião Ramos Cavalcanti). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras
http://www.drc.recantodasletras.com.br/index.php