Damião Ramos Cavalcanti

Enquanto poeta morrer, a poesia haverá de viver

Textos


 A Lua Cheia de Outrora

 
       Li, no Correio da Paraíba do dia 3, que teríamos, ontem, a “maior lua cheia do ano”, o que, à beira-mar, me fez admirar, a olho nu e com binóculo, o mais poetizado satélite natural da Terra.  Isso me recordou que, quando menino, mostravam-me a lua cheia para ver nela São Jorge, montado no cavalo. Nessa fase lunar, o santo aparecia aos olhos dos que acreditavam nos pais e tias que assim descreviam as sombras no solo da lua; manchas tais qual São Jorge da velha benzedeira do outro lado do rio, de lança e tudo, gozando o privilégio invejado por quem desejava ir à lua namorar. A lua tinha tudo a ver com o namoro, por isso se cantava que a “lua é dos namorados”, aparece à noite, com a brisa suave; discreta, ilumina os românticos, sem ofuscar os amantes, com branda doçura, adornada de estrelas...
 

       A lua cheia, silenciosa, apenas luz entre nós, também circunstanciava sons assombrosos, notívagos, como o dos lobos, despertando infantis fantasias do mal, aparição de lobisomens ou de vampiros. Atrás da casa de Dona Toinha, morava um doido chamado de Papa-figo que, na proximidade da lua cheia, gritava a noite inteira e, durante o dia, atirava na gente mais pedras do que habitualmente. Dona Toinha implorava aos moleques que o perturbavam: “Deixe o pobre, ele não tem culpa; quem faz isso é a lua cheia”. Assim se explicavam os loucos e até poetas absortos “no mundo da lua”.
      
        Na lógica de criança, convinha aproveitar a lua cheia para viajarmos a ela, raciocínio não desprovido de razão, já que confirmam sua maior proximidade quando ela aparece cheia. A própria notícia do dia 3 informava que, numa distância de 356.955 km, a sua aproximação da Terra também seria a maior do ano. Sem considerar essa vantagem da lua cheia, em julho de 1969, o homem partiu e desceu na lua. Vi, na TV, esse fato histórico, cujas imagens, há tempos, revejo para me certificar de que realmente vi o homem pisando a lua, ao contrário da curandeira Zilda que ainda não crê nessa “invenção”, benzendo-se com os dedos da testa ao peito: “Só a São Jorge Deus deu essa graça”. Poucos poetas preferem acreditar que ninguém esteve por lá, sendo só “montagem de cinema”, para não acabar o mistério que a lua cheia empresta à poesia.

 
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Damião Ramos Cavalcanti
Enviado por Damião Ramos Cavalcanti em 03/05/2012
Alterado em 03/05/2012
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